Talvez em nenhum outro segmento econômico a sucessão familiar – ou seja, a transferência do controle de um empreendimento de uma geração para outra – seja tão usual quanto no agronegócio. Isso não significa, no entanto, que ela ocorra sempre de maneira natural, sem danos e conflitos. Pelo contrário, se esse processo não for bem conduzido, pode gerar perdas patrimoniais e emocionais com duras sequelas tanto para os negócios quanto para a família. Daí a importância de se planejar bem essa transição, com muito diálogo, organização e, principalmente, antecedência.

A primeira coisa a se elevar em conta é saber se os sucessores realmente têm a intenção de dar continuidade ao empreendimento. Não é segredo para ninguém que o Brasil viveu, nas últimas décadas, um êxodo do campo para os centros urbanos, uma vez que os jovens frequentemente se veem seduzidos pelas decantadas “comodidades” da vida da cidade. Muitas vezes eles percebem que a realidade não é bem essa – e isso vai depender da personalidade de cada um, que precisa ser respeitada. Mas, até isso acontecer, pode ser tarde demais.

Essa conversa entre pais e filhos deve ocorrer com antecedência, da maneira franca e respeitosa, sem pressões e, principalmente enquanto os atuais gestores do negócio ainda desfrutem de boas condições físicas e intelectuais. É imprescindível identificar o sucessor – ou sucessores – e informá-lo(s) sobre a intenção de realizar essa transferência. Portanto, é importante que os sucessores adquiram conhecimento adequado acerca do negócio para dar-lhe continuidade – estudando na área, por exemplo. Havendo mais de um herdeiro, é fundamental fazer a divisão de atribuições, destinando a cada um a área em que melhor demonstrem aptidão: o cultivo, propriamente dito; a parte comercial; a administrativa, etc.

Em muitos casos o herdeiro não manifesta a vocação para este tipo de negócio e irá optar, por exemplo, a permanecer apenas como acionista, seguindo carreira em outra área. Mas até para isso ele precisará estar preparado – o que leva tempo. A escolha de um profissional especializado terceirizado, de fora da família, para conduzir esse processo, pode ser interessante nessa atribuição de papéis. Na verdade, em todo o processo. Afinal, um mediador que não esteja emocionalmente envolvido com a família terá uma posição bem mais imparcial e profissional, facilitando todo tipo de conversas e definições.

A transparência nesse processo todo é fundamental. Os herdeiros devem estar cientes dos custos de produção, da rentabilidade, da área (total, plantada e de preservação), maquinários, histórico de safras, documentação, técnicas produtivas, etc. Nesse sentido, os softwares de administração agropecuária podem ajudar bastante, garantindo o correto registro de todas as informações para a boa administração do empreendimento. Durante todo o tempo que durar essa transição (que pode levar meses ou até anos), é importante estabelecer regras claras quanto às responsabilidades e direitos dos herdeiros, inclusive no que diz respeito aos rendimentos provenientes do negócio.

Desafios a serem superados

Segundo dados do IBGE, apenas 30% das empresas familiares brasileiras (não apenas do agronegócio) chegam à segunda geração – e só 5% resistem até a terceira. Isso ocorre por uma série de fatores, mas principalmente porque os herdeiros não estão preparados para assumir a gestão do negócio dos pais. Isso se deve, muitas vezes, por comunicação ruim entre ambos, divergência de objetivos entre as partes ou, mesmo, porque os sucessores não foram adequadamente preparados para isso – tomando decisões erradas que podem levar o negócio à falência.

Há outros aspectos mais prosaicos, desgastes comuns dentro de casa e que não podem ser levados para o ambiente da empresa, sob o risco de se acentuarem: rivalidade entre irmãos, resistência do patriarca em abrir mão do comando (com medo de perder sua identidade de fundador e líder) e diferenças culturais, principalmente. É natural e desejável que os jovens cheguem com novidades (tecnológicas, por exemplo) ao campo, a fim de levar o empreendimento um passo à frente, mas nem sempre os pais estão dispostos a fazer o investimento necessário.

Para esses casos, a administradora de empresas Tanara Marques de Lima, com MBA em economia e gestão do agronegócio, prega o diálogo, paciência e respeito para que haja o entendimento. “Muitas vezes os filhos foram estudar fora e não conseguem transmitir o que aprenderam para os pais. E nem adianta ‘chegar chegando’. Têm de conquistar a confiança e isso ocorre aos poucos”, diz. Segundo ela, uma dica é começar a participar aos poucos do negócio da família: oferecer ajuda num final de semana, depois num feriado prolongado… e assim vai, gradativamente. “Essa resistência, muitas vezes se dá porque os pais não querem que os filhos sofram o que eles sofreram”, afirma.

No entanto, se essa relação for bem trabalhada, é possível extrair o melhor de ambos os lados e corroborar para o progresso do empreendimento. Resumindo: uma sucessão familiar bem sucedida exige que todos falem a mesma língua.

 

Grupo Multitécnica | Departamento de Comunicação e Marketing

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